A disrupção do "normal"

Se queremos cadeias de transporte mais sustentáveis temos de encontrar interfaces logísticos que sirvam a economia e não sirvam apenas para taxas, taxinhas, rendas e rendinhas.


O confinamento que aprisionou milhões de pessoas nas suas próprias casas também está a obrigar os mercados a repensar os modelos de transporte, mas também a forma de pensar daqueles que consomem, adquirem, revendem e estudam as melhores soluções de transporte.

Esta nova realidade assenta forçosamente numa economia mais verde/azul, mais solidária, mais humanizada e mais digital, logo, completamente diferente do estado da arte atual. O teletrabalho poderá passar a integrar os hábitos de todos nós, do Estado e das Empresas. Mas querem-se outros hábitos, nomeadamente: como vamos proceder à descarbonização dos transportes, como vamos diminuir a pegada de CO2, e como vamos ser catalisadores destas mudanças se não mudarmos de hábitos?

A resiliência (teimosia) nacional com que nos agarramos às ideias não é boa, mas a resiliência com que nos agarramos à vida é ótima. Estarmos mais bem preparados para enfrentar outras pandemias ou outros acontecimentos traumáticos deveria levar-nos a procurar inovação, capacitação, mudança, dinamismo e formação.

Não há dúvida de que esta pandemia veio acelerar algumas tendências de que já se falava; a medo, verdade, mas já se falava. Agora, consolida-se o discurso e volta-se a falar “sem medos” na Ferrovia, no Hidrogénio (energias alternativas), nas cadeias otimizadas de transportes e na Logística.

Se é cedo para se perceber se algumas destas tendências se irão impor, é menos cedo que percebemos que vai ser muito difícil, porque nem sempre as escolhas estratégicas mais corretas em termos de transportes e infraestruturas, são tomadas.

… no complexo da Bobadela, por que não olhar para aquele espaço, reinfraestruturá-lo, dotá-lo de novas condições e depois colocar à disposição dos vários players as atividades possíveis de concessionar? 

 

Tenho andado com um “empreendimento”, mais ou menos 15 anos, às costas. A necessidade de prepararmos a infraestrutura para o modal shift de forma eficiente, eficaz e competitiva. Ora, se queremos cadeias de transporte mais sustentáveis temos de encontrar interfaces logísticos que sirvam a economia e não sirvam apenas para taxas, taxinhas, rendas e rendinhas. Tenho assistido a alguma movimentação, não de contentores, à volta de alguns terminais rodo/ferroviários nacionais. Digo “não de contentores”, pois contentores é coisa que não têm. Depois fico algo assombrado quando ouço e leio, muitas vezes, que o “A” ou “B” vão fazer mais um terminal, aqui ou ali.

Desta vez vou mais além; já o referi uma vez, desta vez escrevo.

Por que não pensamos num modelo para os Terminais/Portos Secos, muito semelhante ao dos Portos, ou seja, construir a infraestrutura e depois concessionar a mesma aos interessados?

Por exemplo, no complexo da Bobadela, por que não olhar para aquele espaço, reinfraestruturá-lo, dotá-lo de novas condições e depois colocar à disposição dos vários players as atividades possíveis de concessionar? Atualmente o que temos é um “espartilho” do espaço, em que infraestruturas comuns só são usadas por uns, quando deveriam ser usadas por e para todos, diminuindo o investimento próprio, aumentando a rentabilidade do investimento já instalado. 

Em Espanha, os Portos participam nas sociedades investidoras e depois concessionam. Desta forma permitem que o seu hinterland se alargue. O Porto Seco – Plaza de Zaragoza tem capital do Porto de Valência, vai nascer um novo Porto Seco em Guadalajara com capital do Porto de Tarragona, etc…

Vejamos ainda a aplicabilidade prática do Dec-Lei sobre os Portos Secos. Excelente iniciativa que, acompanhada de outras medidas, nomeadamente de gestão dos Portos Secos, teria tido seguramente um impacto muito diferente no transporte. Assim, na prática, praticamente, não se “pratica”. Tornar isto uma realidade é difícil, mas não é impossível. Basta querer e basta querer pensar num modelo de governance diferente, num modelo de gestão distinto e num modelo comercial mais participativo e inclusivo.

É preciso sermos verdadeiros agentes de mudança, perceber o que não funciona, por que não funciona e pôr a funcionar. De que vale termos infraestruturas disponíveis e gastar recursos em mais infraestruturas para complementar aquelas? Como dizia Steve Jobs, “Nunca serás criticado por alguém que esteja a fazer mais que tu, só serás criticado por alguém que esteja a fazer menos que tu”. No meu caso em particular,m apenas entendo que o meu dever cívico é contribuir para a discussão e eventuais soluções.


Nabo Martins

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